A ambiguidade moral no clímax de hunter x hunter: O que o autor buscou com a fúria de gon?
A transformação de Gon Freecss no arco das Formigas Quimera levanta questões profundas sobre a natureza da vingança e a aceitação de atos extremos por parte do protagonista.
A conclusão do arco das Formigas Quimera na obra Hunter x Hunter, centrada na transformação drástica de Gon Freecss, provoca uma intensa reflexão sobre os limites morais de um protagonista shonen. O cerne da questão reside na postura do jovem caçador frente ao sacrifício de Neferpitou e a situação de Komugi, gerando um desconforto significativo em quem acompanha a jornada de redenção e justiça do personagem.
A fúria cega que domina Gon após a morte de Kite é executada com uma letalidade e um desapego que contrastam fortemente com a sua índole inicial. Muitos espectadores observam que sua atitude em relação a Pitou beirou a indiferença cruel, não apenas pela sede de vingança, mas pelo tratamento apático dispensado à própria Komugi. A vida da garota era o único ponto de negociação ou trégua possível, contudo, Gon demonstrava um desprezo que incluía até mesmo a inocente refém.
O dilema da vingança e a indiferença
A narrativa estabelece um cenário onde a única variável em jogo era a vida de Komugi. A luta contra Pitou, fora daquele contexto específico, não alteraria o destino de Kite, mas a hesitação em poupar a garota levanta um ponto crucial sobre a profundidade do ódio que consumiu o herói. Analistas da trama sugerem que essa passagem é um estudo sobre a corrupção da inocência pela obsessão vingativa, um caminho que raramente é explorado com tanta severidade em narrativas juvenis, como as do gênero shonen.
O que causa maior estranheza é a aparente aceitação passiva desse nível de distorção mental por parte dos aliados de Gon. Diferentemente de outros momentos da série, onde a moralidade dos atos é questionada, neste clímax, os companheiros parecem resignados à sua fúria desmedida. Essa falta de intervenção ou tentativa de resgate moral do protagonista intensifica a sensação de que o criador, Yoshihiro Togashi, queria evocar um sentimento de repulsa ou, no mínimo, de extrema inquietação.
A mensagem oculta na escuridão do protagonista
A grande interrogação que paira é se o público deveria aplaudir a vingança implacável ou se deveria sentir um desconforto sobre a extrema facilidade com que Gon descartou valores fundamentais. A brutalidade dos golpes, o sofrimento infligido a Pitou e o silenciamento de Komugi são elementos que parecem deliberadamente desconfortáveis. A obra força o espectador a confrontar a ideia de que vingança, mesmo justificada pela perda, pode desumanizar totalmente o indivíduo, transformando o herói em algo quase monstruoso.
Isso sugere que a intenção por trás da transformação de Gon não era inspirar admiração pela sua força, mas sim explorar as consequências psicológicas devastadoras de se entregar por completo ao ódio. A complexidade em torno da situação de Komugi serve como um espelho moral, mostrando o quão pouco o jovem caçador se importava com o presente imediato em nome de um passado irrecuperável. A obra mergulha em sombras éticas, forçando uma reavaliação do que significa ser um herói em um mundo de caçadores e monstros.