Adoção de kanaô por shinobu kocho: Nobreza ou transgressão à lei no universo de <em>demon slayer</em>?
A complexa história de resgate de Kanaô Tsuyuri pelas irmãs Kocho levanta questões sobre a legalidade da obtenção de propriedade, mesmo em contextos de extrema injustiça.
O resgate da personagem Kanaô Tsuyuri, do aclamado mangá e anime Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba, pelas irmãs Shinobu e Kanae Kocho, é frequentemente celebrado como um ato de profunda bondade e heroísmo. Contudo, uma análise mais fria e aprofundada das circunstâncias revela um ponto de vista alternativo que questiona a legalidade da ação de Shinobu, focando na apropriação de um bem, mesmo que esse bem fosse uma criança escravizada.
No passado obscuro de Kanaô, ela era mantida como escrava por um mestre cruel, sendo inclusive controlada por uma coleira. Quando Kanae e Shinobu a encontraram, o mestre exigiu pagamento para permitir qualquer interação com a menina. O que se seguiu, segundo a narrativa, foi um ato impulsivo de Shinobu: ela jogou moedas em grande quantidade no chão e, aproveitando a distração, retirou a coleira e levou Kanaô consigo.
A questão da propriedade e o acordo não firmado
Vista sob a ótica estritamente legal, a ação de Shinobu apresenta paralelos com o furto de bens. Um dos argumentos centrais reside no fato de que, embora as moedas tenham sido eventualmente jogadas, o mestre não deu seu consentimento explícito para a venda ou transferência da posse de Kanaô àquele momento. A perspectiva comparativa é ilustrativa: se alguém possui legalmente um animal de estimação, por exemplo, não é aceitável simplesmente atirar dinheiro no chão e tomar o animal sem um acordo mútuo e claro de venda.
A alegação de que Shinobu buscou comprar Kanaô é mitigada pela forma como o ato foi executado. Foi uma tomada de posse forçada, não uma transação finalizada. O ponto crucial é a falta de concordância formal ou permissão direta do “proprietário” para a retirada da criança, mesmo diante da moralidade questionável da escravidão.
Contexto histórico versus moralidade
Reconhece-se que o período narrativo de Demon Slayer se passa em uma época onde práticas como a venda de crianças eram infelizmente comuns e aceitas socialmente. Argumenta-se que, dadas as normas daquele tempo, o ato de Shinobu visava resgatar a menina de uma vida de abusos, priorizando a ética humana acima das estritas regras de propriedade vigentes.
Porém, os críticos dessa abordagem insistem que, mesmo reconhecendo o erro intrínseco da escravidão infantil, a forma de intervenção utilizada por Shinobu configura um crime de apropriação indébita ou furto. A nobreza do objetivo não necessariamente santifica os meios empregados para alcançá-lo, especialmente quando se trata de um ato que desafia as estruturas legais estabelecidas, mesmo que injustas. A adoção, portanto, é vista por alguns como o resultado final de um ato ilícito inicial, disfarçado por uma intenção humanitária.