Análise aprofundada de hunter x hunter revela qualidades notáveis e falhas estruturais na obra-prima shonen
Uma análise crítica detalhada da obra <strong>Hunter x Hunter</strong> explora seu excepcional world-building e complexidade moral, ao mesmo tempo que aponta problemas de ritmo e desenvolvimento de personagem.
A obra Hunter x Hunter, criada por Yoshihiro Togashi, continua a ser um ponto central de admiração e debate no cenário dos animes e mangás, mesmo anos após sua publicação inicial. Uma avaliação detalhada da série demonstra um equilíbrio fascinante entre pontos altos aclamados e complexidades narrativas que geram críticas substanciais.
As Forças Inegáveis da Narrativa
Um dos pilares mais elogiados é a construção de mundo, o world-building. A versatilidade do universo de HXH, desde os métodos de transporte como o aeróstato até a diversidade de paisagens e criaturas, é vista como um diferencial. Essa ambientação, apesar de fantástica, é habilmente conectada à realidade, sugerindo que o nosso próprio mundo é vasto e pleno de conhecimento ainda inexplorado. O conceito do Continente Negro, por exemplo, evoca mitos como o de Atlântida, simbolizando os limites do controle humano e a noção de que a humanidade não está necessariamente no topo da cadeia alimentar. Criaturas como as formigas Quimera e a Ai, que concede desejos mediante troca equivalente de sofrimento, carregam um peso moral e simbólico que eleva o patamar da série.
A complexidade dos personagens e a prevalência da moralidade cinzenta se destacam como características centrais, distanciando HXH de muitos títulos shonen clássicos. A série apresenta personagens que transitam entre o santo e o pecador, onde as boas intenções nem sempre resultam em boas ações. Personagens como Meruem, Pariston e até mesmo Knuckle são citados por terem uma profundidade que os torna cativantes. Gon Freecss, o protagonista, é frequentemente visto não como um salvador idealizado, mas como uma criança imatura e orgulhosa cujas intenções, embora supostamente boas, podem ser perigosas.
A imprevisibilidade e as súbitas mudanças de gênero são cruciais para a identidade da série. O autor demonstra ousadia ao integrar temas pesados em diferentes arcos sem se prender a uma estrutura previsível. O Arco das Formigas Quimera é o exemplo máximo disso, impactando os espectadores com uma mudança drástica de tom. A culminação emocional desse arco, com a morte de Netero e o destino final de Meruem, jogando xadrez contra Komugi, é frequentemente descrita como um feito artístico que manipula habilmente as cordas emocionais do público, levando-o do desejo pela morte do vilão ao luto por seu fim.
Pontos de Fricção e Críticas Estruturais
Apesar do reconhecimento artístico, a análise aponta diversas áreas de execução falha. Uma das críticas recai sobre a introdução excessiva de temas filosóficos, que por vezes se manifestam de forma redundante. A narrativa, em certos momentos, parece ter a tendência de explicar conceitos complexos em demasia, retirando do leitor ou espectador o espaço para a reflexão autônoma.
O desenvolvimento do protagonista Gon é questionado. Ele é visto como um personagem bipolar, oscilando entre a inocência e a vingança extrema, mas sem demonstrar um desenvolvimento contínuo ou cicatrizes permanentes dos traumas sofridos. A sobrevivência e o renascimento de Kite, após o sacrifício de Gon, é citada como um ponto fraco narrativo, pois anula o impacto da vingança e impede o crescimento permanente do personagem principal.
O ritmo, especialmente durante o Arco das Formigas Quimera, sofre com alongamentos desnecessários. Eventos como o treinamento de Gon e Killua para se juntar ao grupo de combate, ou lutas secundárias da Trupe Fantasma que pouco agregaram à trama principal, são vistos como lentidão que desgasta a experiência. Além disso, a dependência do tema do poder da amizade é considerada excessiva no desenvolvimento de Killua durante esse arco, reduzindo sua complexidade a um foco exclusivo na relação com o amigo.
Um ponto mais sensível abordado é a sexualização inadequada de certos personagens, notadamente Hisoka interagindo com menores, o que atravessa limites éticos, independentemente do contexto de fantasia. Personagens como Palm e até reações de lealdade de membros das formigas Quimera a Meruem também são citadas por tocarem em temas de fetichismo de maneira desconfortável e desnecessária.
Finalmente, o Arco da Sucessão da Príncipe do Reino Kakin, embora envolvente em termos de variedade de novas habilidades e personagens, é criticado pela falta de profundidade e direção clara. A narrativa se expande em muitas frentes simultâneas, gerando uma sensação de desorientação sobre os objetivos finais e a mensagem central que Togashi busca comunicar com tantos elementos novos.