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A análise do trauma: Por que o primeiro eclipse de berserk é visto como uma experiência assustadora

Exploramos a profunda reação emocional gerada pela cena do Eclipse em Berserk, um evento central na obra de Kentaro Miura.

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Analista de Mangá Shounen

29/01/2026 às 16:20

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A narrativa de Berserk, o aclamado mangá criado por Kentaro Miura, é conhecida por sua profundidade temática, complexidade moral e, inegavelmente, por momentos de extrema violência e horror psicológico. Entre esses marcos está o evento conhecido como o primeiro Eclipse, que frequentemente provoca reações intensas entre os leitores, sendo descrito por muitos como uma experiência traumatizante.

Para leitores que se aventuram pela primeira vez no universo sombrio da Banda do Falcão, a intensidade da cena pode gerar questionamentos. Embora os atos cometidos sejam universalmente reconhecidos como hediondos e moralmente repulsivos, a percepção da sua capacidade de causar trauma difere. A dificuldade reside em separar o horror gráfico da profundidade do impacto psicológico que a sequência provoca na construção da história.

O horror que transcende o gráfico

O que separa o Eclipse de outras cenas brutais em obras de fantasia ou terror é sua fundamentação no desespero humano e na traição absoluta. Não se trata apenas de uma batalha sangrenta ou de uma demonstração de força demoníaca. O evento é o clímax da ambição desmedida de Griffith, que culmina no sacrifício de todos os seus companheiros mais íntimos para alcançar seu sonho de ter um reino próprio.

A construção desse momento envolve camadas de tensão emocional acumulada. O leitor é forçado a testemunhar, através dos olhos de Guts, a aniquilação de tudo o que era puro e promissor naquela fase da narrativa. A violência não é gratuita; ela é o catalisador para a transformação irreversível dos personagens principais e o ponto de inflexão que define o tom sombrio e implacável do restante da saga. A sensação de impotência diante do inevitável é um motor poderoso para a reação emocional descrita como trauma.

A desconstrução da esperança

A crueldade do Eclipse está menos na exibição explícita de sofrimento e mais na desconstrução da esperança. Berserk trabalha magistralmente a ideia de que a luz pode facilmente ser engolida pela escuridão, especialmente quando motivada por um egoísmo extremo. Ao forçar o leitor a internalizar a profundidade da dor e da perda sentida por Guts, o mangá cria uma conexão empática muito forte.

Essa ressonância emocional é uma marca registrada do trabalho de Miura, que explorava temas complexos como destino, livre arbítrio e a natureza do mal. Para quem acompanha a jornada desde o início, o Eclipse cimenta a premissa da luta constante contra forças esmagadoras, tanto externas quanto internas. O choque reside na forma como o idealismo da juventude é destruído em prol de um poder supremo, um tema explorado em diversas obras de tragédias literárias.

Portanto, a reação descrita como traumatizante é, em grande parte, um reflexo direto do sucesso da obra em conectar o leitor ao desespero e à perda absoluta vivenciados pelas personagens centrais. A cena permanece como um estudo de caso sobre como narrativas densas podem evocar respostas profundas e duradouras, muito além do mero susto inicial.

An

Analista de Mangá Shounen

Especializado em análise aprofundada de mangás de ação e batalhas (shounen), com foco em narrativas complexas, desenvolvimento de enredo e teorias de fãs. Experiência em desconstrução de arcos narrativos e especulações baseadas em detalhes canônicos.