A ausência de refeições em hunter x hunter e o foco na privação dos personagens
Uma observação atenta sobre Hunter x Hunter revela a escassez de cenas de alimentação, contrastando com outros animes de longa duração.
Em análises superficiais das grandes franquias de anime shonen, como Dragon Ball Z, One Piece e Naruto, as refeições compartilhadas e as celebrações gastronômicas frequentemente pontuam a narrativa, servindo como momentos de descanso ou desenvolvimento de laços sociais. Contudo, ao focar na obra Hunter x Hunter (HxH), de Yoshihiro Togashi, nota-se um padrão narrativo distintamente diferente: a notável ausência de personagens se alimentando em tela.
Este detalhe, muitas vezes discreto, sugere uma escolha estilística que reforça o tom da série. Enquanto em outros universos as lutas culminam em um grande banquete, em Hunter x Hunter, a ênfase recai sobre a preparação incessante, o sacrifício e, crucialmente, a exaustão dos protagonistas.
O ciclo da fome e da meta
A falta de momentos dedicados à nutrição parece refletir o estado constante de necessidade enfrentado por Gon, Killua e seus aliados. A jornada para se tornar um Hunter é retratada como implacável. O foco é quase sempre a superação de um obstáculo imediato.
Um arco notório para ilustrar essa privação é o Greed Island Arc. Durante seu treinamento intensivo com Biscuit Krueger, a prioridade absoluta de Gon e Killua era o aprimoramento de suas habilidades, seja pela escalada de montanhas ou pela execução de tarefas complexas dentro do jogo eletrônico. A sobrevivência e o progresso eram definidos pelo Nen, não pela ingestão calórica. A fome física e mental tornou-se um subproduto da ambição.
Contraste narrativo com grandes títulos
Contrastar HxH com animes como One Piece, onde a comida é um elemento cultural central, ou mesmo com Dragon Ball Z, onde Goku é famoso por seu apetite insaciável, realça a seriedade com que Hunter x Hunter trata a dedicação ao objetivo. A alimentação, quando ocorre, é rara e utilitária, ou se torna parte de um desafio específico, como na fase inicial dos exames Hunter, onde a superação de barreiras físicas era primordial.
Essa omissão sutil funciona como um comentário implícito sobre o custo da grandeza. Os personagens estão frequentemente famintos por poder, por respostas ou por reencontrar entes queridos, e essa fome existencial parece ofuscar a necessidade biológica básica. A narrativa economiza tempo em cenas mundanas porque, para esses indivíduos, o tempo é escasso e deve ser gasto treinando, lutando ou planejando o próximo passo crucial em sua perigosa carreira. A vida de um Hunter, como apresentada por Togashi, é pautada na privação estratégica, onde o conforto da mesa é adiado indefinidamente em prol da sobrevivência no topo.