Berserk subverte o arquétipo do escolhido: Análise da distorção divina e a luta humana

O mangá de Kentaro Miura desconstrói o tropo fantasy do 'Escolhido', apresentando Griffith como um messias corrupto e Guts como o anti-herói que defia o destino com sua própria vontade.

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Analista de Mangá Shounen

21/08/2026 às 00:20

4 min de leitura
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O gênero de fantasia medieval é frequentemente dominado pelo arquétipo do Escolhido, uma figura predeterminada pelo destino para salvar o mundo ou cumprir uma profecia grandiosa. No entanto, a obra-prima de Kentaro Miura, Berserk, executa uma desconstrução brutal e sofisticada desse tropo. A narrativa não apenas inverte as expectativas do leitor, mas expõe a fragilidade e a periculosidade das narrativas de salvação divina, dividindo essa dualidade entre seus dois protagonistas centrais: Griffith e Guts.

Griffith: O Messias Corrupto

À primeira vista, Griffith encarna a perfeição do herói tradicional. Sua ascensão ao poder parece guiada por mãos divinas, posicionando-o como o salvador destinado de Midland. Eventos históricos são manipulados para garantir sua existência e seu papel como líder durante crises existenciais, como a invasão de um império demoníaco. Contudo, essa imagem cristã de redenção mascara uma verdade terrível: a divindade que o apoia é, na realidade, a Ideia do Mal.

A ascensão de Griffith ao status de Falcon of the Darkness foi construída sobre sacrifícios humanos maciços. A profecia que descreve sua chegada fala de um "senhor das ovelhas negras pecadoras" e do início de uma "era de escuridão", revelando que ele não é o salvador, mas sim a calamidade vestida de luz. Ele explora o desejo humano desesperado por proteção em tempos sombrios, atuando como um Lucifer sedutor que afasta a humanidade do paraíso com promessas falsas e aparências brilhantes.

Guts: O Luchador contra o Destino

Em contraste diametral, Guts representa a antítese do Escolhido. Batizado como "o Lutador" pelo Cavaleiro da Caveira, seu caminho não é traçado por decretos celestiais, mas marcado por uma resistência feroz contra um universo que insiste em eliminá-lo. Desde o nascimento, emergindo de um cadáver até os sobrevivimentos impossíveis contra monstros como Gambino e Zodd, a vida de Guts é uma série de quase-mortes.

A Eclipse, evento traumático central da trama, deveria ter sido seu fim definitivo. Mesmo aliados mágicos reconhecem que ele não deveria ter sobrevivido. Ainda assim, Guts persiste. Sua filosofia rejeita a benevolência dos deuses; ele confia apenas em sua própria força e nos laços humanos que constrói. A famosa declaração de Guts para o Cavaleiro da Caveira resume essa rebeldia existencial: "Quando encontrar seu deus, diga a ele para deixar eu em paz".

A Subversão Narrativa

A genialidade de Berserk reside em como essas duas forças opostas definem a natureza do heroísmo. Enquanto Griffith é "escolhido" pelas entidades cósmicas para dominar e destruir, Guts é ignorado por elas, sendo forçado a criar seu próprio significado através da dor e da perseverança. A obra sugere que o verdadeiro poder não vem de um destino pré-escrito ou de bênçãos divinas corruptas, mas da capacidade humana de continuar lutando apesar das adversidades absolutas.

Essa estrutura narrativa transforma a fantasia convencional em uma alegoria sobre autonomia. Ao remover a segurança do "destino favorável", Miura força o protagonista, e consequentemente o leitor, a confrontarem a realidade nua e crua da existência: sem salvadores, apenas aqueles que se recusam a cair.

An

Analista de Mangá Shounen

Especializado em análise aprofundada de mangás de ação e batalhas (shounen), com foco em narrativas complexas, desenvolvimento de enredo e teorias de fãs. Experiência em desconstrução de arcos narrativos e especulações baseadas em detalhes canônicos.