A complexidade de casca em berserk e a superação do teste de bechdel como mérito de personagem
A análise da personagem Casca em <strong>Berserk</strong> aponta como sua aparente ausência no Teste de Bechdel reforça a narrativa sobre o patriarcado em seu mundo.
A profundidade das personagens femininas na aclamada obra Berserk, criada pelo mestre Kentaro Miura, frequentemente gera discussões ricas sobre a representação de gênero dentro do universo sombrio do mangá. Uma perspectiva notável foca em Casca, cuja trajetória e interações parecem justificar sua não conformidade com o Teste de Bechdel, um critério simples que avalia se uma obra contém pelo menos duas personagens femininas que conversam entre si sobre algo que não seja um homem.
Embora personagens como Schierke e Farnese na fase posterior da história consigam satisfazer esse teste, Casca raramente o faz. Contudo, essa ausência não é vista como uma falha narrativa, mas sim como um fator que enriquece sua própria caracterização e o contexto mundial da série. Sua obsessão e o relacionamento codependente com Griffith, antes e durante os eventos cruciais da Era Dourada, são elementos centrais que definem grande parte de sua luta interna e motivações.
O peso do afeto e do trauma
O foco intenso de Casca em Griffith, e a subsequente complexidade emocional ao desenvolver um relacionamento com Guts enquanto ainda lidava com a necessidade de salvar seu antigo comandante, ilustra um arco dramático profundamente pessoal e doloroso. Esse dilema reflete como as emoções e os laços interpessoais formativos ditam suas prioridades, distanciando-a de diálogos que poderiam cumprir o teste de Bechdel.
A análise se aprofunda ao observar o cenário de Berserk. O mundo retratado é fundamentalmente dominado por figuras masculinas de poder. Quase todas as personagens femininas significativas são apresentadas como vítimas diretas ou indiretas da manipulação e da tirania masculina reinante. Farnese, sob a égide da Santa Sé, e a própria Casca, manipulada pelas ambições de Griffith, são os exemplos mais proeminentes dessa dinâmica opressiva.
A obra, portanto, utiliza a estrutura social do seu universo para apresentar uma crítica contundente sobre os estragos causados pelo patriarcado. A maneira como as mulheres são forçadas a navegar em ambientes hostis limita suas oportunidades de interação mútua que esteja fora do escopo de sobrevivência ou de suas relações com homens poderosos que as definem socialmente.
Dessa forma, a não aprovação de Casca no critério se torna um testemunho da crueza da narrativa de Miura. Sua história ilustra, de maneira poderosa, como as pressões sistêmicas podem moldar e restringir a agência das personagens femininas, tornando suas lutas individuais, embora focadas em laços masculinos, um reflexo da temática maior da opressão dentro da saga. A complexidade de sua psique, marcada por lealdade e trauma, garante seu lugar como uma das figuras femininas mais estudadas e fascinantes do mangá de fantasia sombria.
Analista de Mangá Shounen
Especializado em análise aprofundada de mangás de ação e batalhas (shounen), com foco em narrativas complexas, desenvolvimento de enredo e teorias de fãs. Experiência em desconstrução de arcos narrativos e especulações baseadas em detalhes canônicos.