A complexa relação entre griffith e guts em berserk: Afeição genuína ou mera ferramenta?

Analisamos a ambiguidade do vínculo entre Griffith e Guts na obra Berserk, explorando se há afeto real no centro da tragédia.

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Analista de Mangá Shounen

01/01/2026 às 07:15

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A trajetória de Griffith e sua fascinação por Guts são pilares centrais da narrativa épica de Berserk, criada por Kentaro Miura. Para leitores iniciantes na obra, que já se depararam com spoilers sobre a natureza vilanesca de Griffith, surge uma questão fundamental: a relação entre os dois protagonistas era baseada em algum tipo de afeto genuíno, ou Guts sempre foi apenas um meio para alcançar o sonho ambicioso de Griffith?

A complexidade reside precisamente na forma como o mangá retrata os laços interpessoais, especialmente os laços de camaradagem intensa. Inicialmente, o carisma magnético de Griffith parece inspirar lealdade inabalável na Banda do Falcão. Ele vê em Guts uma força, uma peça chave, mas também alguém que desafia sua própria perspectiva de existência. Este desafio é o que torna a dinâmica tão poderosa e, subsequentemente, tão destrutiva.

O desejo de posse versus a necessidade de pertencimento

É crucial diferenciar a admiração que Griffith nutre por coisas que ele deseja possuir e a apreciação por um indivíduo. Griffith, em sua busca incessante por um reino próprio, opera em um nível de ambição que coloca seus próprios desejos acima de qualquer consideração humana ou moral. Guts, representando a liberdade irrestrita e a capacidade de viver sem se prender a sonhos alheios, torna-se o objeto de desejo mais puro de Griffith, embora esse desejo não seja necessariamente romântico no sentido convencional.

Para o líder da Banda, possuir Guts significava possuir o único elemento que parecia resistir à sua manipulação total. A amizade, ou o que Griffith entende por ela, é vista como mais um troféu a ser conquistado. Isso ecoa a maneira como ele trata seus companheiros, admirando-os como símbolos de sua ascensão, mas sempre com a consciência de que eles existem para servir ao seu propósito maior.

A natureza da conexão

A ambiguidade sobre a orientação sexual de Griffith, frequentemente levantada em discussões sobre a obra, é um sintoma da própria natureza irrealizada de suas conexões. O autor constrói personagens cujas emoções são profundamente ambíguas e, muitas vezes, distorcidas pela megalomania. O que parece ser um vínculo fraterno ou quase romântico para os observadores externos é, para Griffith, uma ferramenta de validação. Ele precisa de Guts ao seu lado para se sentir completo em sua visão de mundo, mas não está disposto a renunciar ao seu sonho por ele.

Assim, a análise mais fria sugere que Griffith se importa profundamente com o que Guts representa em seu quadro de referência. A dor sentida quando Guts parte, e a subsequente obsessão em recuperá-lo, não é apenas a perda de um soldado forte, mas a falha em dominar o único aspecto de sua vida que parecia fugir ao seu controle. A tragédia, portanto, reside na incapacidade de Griffith de amar qualquer coisa que não seja ele mesmo e seu sonho, mesmo que essa paixão se manifeste através de uma intensa, porém possessiva, ligação com Guts. A profundidade dessa ligação se prova mortal quando o sonho de um colide com a busca por autonomia do outro, culminando no evento conhecido como o Eclipse, onde todas as barreiras emocionais são obliteradas pela ambição suprema.

An

Analista de Mangá Shounen

Especializado em análise aprofundada de mangás de ação e batalhas (shounen), com foco em narrativas complexas, desenvolvimento de enredo e teorias de fãs. Experiência em desconstrução de arcos narrativos e especulações baseadas em detalhes canônicos.