A complexidade de gênero em hunter x hunter: O caso de alluka e a fluidez em narrativas shonen
A análise de Alluka traz à tona discussões sobre fronteiras de gênero na obra de Yoshihiro Togashi, explorando a dualidade da personagem e sua representação.
A representação de gênero em obras de fantasia e ação, como Hunter x Hunter, frequentemente oferece um terreno fértil para interpretações que desafiam as normas binárias tradicionais. Um ponto focal nessas discussões envolve a personagem Alluka Zoldyck, cuja identidade gerou um intenso foco sobre como a narrativa e a cultura influenciam a percepção de um personagem.
Em essência, a questão central gira em torno da dualidade inerente à entidade conhecida como Alluka e Nanika. Enquanto Alluka se apresenta com uma aparência feminina, utilizando vestimentas tradicionais que remetem à cultura japonesa para donzelas, a estrutura familiar Zoldyck consistentemente emprega pronomes masculinos ao se referir à criança.
A dualidade de pronomes e a visão familiar
Observadores da obra original em japonês, tanto no mangá quanto no anime, notam que a família Zoldyck e seus empregados, com exceção de Killua, referem-se a Alluka utilizando termos de gênero masculino, inclusive chamando-a de irmão de Killua. Esta escolha linguística indica uma forte aderência à identidade definida pelo clã, que parece ignorar a manifestação física ou a autoidentificação da criança.
Contudo, o comportamento de Killua Zoldyck serve como um contraponto crucial a essa rigidez familiar. Killua demonstra uma clara percepção e aceitação da identidade feminina de Alluka, tratando-a consistentemente com pronomes femininos no idioma original. Em momentos cruciais, como ao selecionar as governantas que a acompanhariam, o cuidado demonstrado por Killua reforça a ideia de que a perspectiva dele reflete uma verdade mais profunda sobre a personagem, transcendendo as regras impostas pela hierarquia Zoldyck.
Entre She/Her e They/Them: navegando a identidade
A coexistência de duas entidades em um único corpo - Alluka e o ser extradimensional Nanika - é vista por alguns como um catalisador para uma compreensão mais ampla de gênero. Se consideradas como duas naturezas interdependentes, a aplicação do pronome They/Them (eles/delas, em português, embora o sistema pronominal seja mais complexo) ganha relevância, indicando uma identidade não binária ou fluida. Além disso, a própria Alluka parece se associar a um gênero específico, já que se expressa muitas vezes com a persona de Nanika usando She/Her (ela/dela). O espectro interpretativo, portanto, sugere uma gama de pronomes válidos como She/Her/They/Them.
Essa complexidade coloca Alluka ao lado de outras figuras da série, como Kurapika e Pitou, que também desafiam categorizações estritas de gênero na obra de Yoshihiro Togashi. Kurapika, com sua aparência andrógina e indiferença a rótulos, e Pitou, cuja biologia não permite uma classificação simples, exemplificam a tendência da série em explorar a fluidez em oposição à rigidez social.
A personagem Alluka, portanto, não é apenas um veículo para habilidades extraordinárias dentro da trama de Hunter x Hunter; ela se estabeleceu como um ícone relevante na discussão sobre representatividade, forçando o público a questionar a autoridade da identidade imposta versus a validade da autoidentificação e da dualidade inerente ao ser.
Fã de One Piece
Entusiasta dedicado da franquia One Piece com foco em análise de conteúdo e apreciação de comédia e desenvolvimento de personagens. Experiência em fóruns especializados e discussões temáticas sobre o mangá/anime.