A complexidade moral de griffith: O personagem de berserk é realmente odiado em excesso?

Uma análise se as ações de Griffith após se tornar Femto anulam sua tragédia anterior, reacendendo o debate sobre sua redenção.

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Analista de Mangá Shounen

15/04/2026 às 09:28

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O debate em torno da figura de Griffith, um dos antagonistas mais complexos da série Berserk, atinge novas camadas de profundidade ao se questionar se o ódio direcionado a ele é proporcional às suas ações ou se desconsidera o peso de sua jornada inicial.

A controvérsia reside fundamentalmente na cisão entre o Griffith humano, o líder carismático da Tropa do Falcão, e a entidade conhecida como Femto, após o sacrifício fatídico que permitiu sua ascensão à Mão de Deus. Uma perspectiva argumenta que as atrocidades cometidas sob a forma de Femto não podem ser integralmente atribuídas à sua consciência original, sugerindo que o ser que emergiu não é mais o mesmo indivíduo que sofreu.

A perda e a manipulação no ponto mais baixo

Um dos pontos centrais levantados na análise da personagem é o momento de sua queda. Antes da Eclipse, Griffith experimentou uma perda absoluta de tudo o que havia construído. Após sacrificar sua humanidade para realizar seu sonho de possuir um reino, o preço pago foi o aprisionamento pelo Desejo e, crucialmente, sua vulnerabilidade física e emocional.

Neste estado de fragilidade extrema, a transformação em Femto é vista por alguns como um ato de coerção. A ideia é que Griffith estava em seu ponto mais baixo, quase destruído, momento em que a Mão de Deus o utilizou, agindo quase como uma lavagem cerebral ou um reset drástico de sua psique. Se ele foi forçado a tomar uma decisão seminal sob essas circunstâncias, a responsabilidade moral sobre os atos subsequentes, embora cruéis, deveria ser mitigada por essa manipulação primordial.

O ônus da ambição e o preço do sonho

Por outro lado, a narrativa de Berserk, criada por Kentaro Miura, sempre explorou como a ambição desmedida corrompe. A decisão de sacrificar a Tropa do Falcão, incluindo amigos íntimos como Guts e Casca, foi tomada pelo Griffith humano, impulsionado por seu desejo obsessivo de ascender. Isso implica que o impulso destrutivo já estava presente, apenas esperando a oportunidade catalisadora.

A transição para Femto apenas concedeu a ele o poder ilimitado para concretizar esses desejos. Portanto, reverter a culpa para um ente externo, a Mão de Deus, poderia ser interpretado como uma tentativa de absolver o personagem de uma falha de caráter preexistente, embora a forma como ele se manifesta depois seja inegavelmente monstruosa. O desdobramento de suas ações subsequentes, como a criação de Falconia e o caos que trouxe, solidifica sua posição como vilão, independentemente da contestação sobre a continuidade de sua identidade.

A discussão, ao fim, ressalta a maestria de Miura em criar um personagem cuja tragédia pessoal (a perda de seu corpo, o aprisionamento) fornece um pano de fundo para um mal que é, simultaneamente, compreensível em sua origem e imperdoável em sua execução.

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Analista de Mangá Shounen

Especializado em análise aprofundada de mangás de ação e batalhas (shounen), com foco em narrativas complexas, desenvolvimento de enredo e teorias de fãs. Experiência em desconstrução de arcos narrativos e especulações baseadas em detalhes canônicos.