A complexa moralidade de itachi uchiha: Um estudo sobre a escrita de personagens ambíguos
A profundidade narrativa em torno de Itachi Uchiha é explorada como um contraste deliberado a abordagens mais simplistas de vilania em narrativas contemporâneas.
A construção de Itachi Uchiha, um dos personagens mais emblemáticos do universo Naruto, frequentemente surge como um ponto focal para análises sobre a escrita de personagens moralmente complexos. A maneira como Masashi Kishimoto optou por apresentar o massacre do clã Uchiha e o subsequente arco de redenção de Itachi demonstra uma sofisticação narrativa que evita caminhos mais fáceis para estabelecer a vilania ou heroísmo.
Em histórias onde um personagem central comete atos extremos, um roteirista poderia facilmente justificar tal comportamento através de traumas explícitos ou da demonização unilateral das vítimas. No caso de Itachi, tal recurso não foi empregado. O autor manteve a nuance, apresentando o clã Uchiha, incluindo inclusive o pai de Itachi, como figuras com humanidade e capacidade de afeto, ainda que envolvidas em intrigas políticas dentro de Konoha. A ausência de um histórico de abuso infantil, por exemplo, ou a representação do clã como intrinsecamente maligno, força o leitor a lidar com a decisão de Itachi em um espectro de cinza, e não em preto ou branco.
O peso da ausência de explicações fáceis
Um ponto crucial destacado na análise da obra é o fato de Itachi ter executado o massacre enquanto a maioria dos membros do clã estava dormindo, contando com o auxílio de uma força externa poderosa, Obito Uchiha. Kishimoto não transformou o evento em um espetáculo de batalhas épicas contra inocentes conscientes. Essa escolha minimiza a glorificação da violência gratuita e reforça o peso do sacrifício pessoal de Itachi, que agiu como um espião e executor sob ordens superiores, um garoto de apenas 13 anos forçado a assumir um fardo insuportável.
Essa moderação na apresentação dos fatos contrasta com abordagens vistas em narrativas mais recentes, onde a construção de vilões por vezes se apoia em uma maldade caricatural ou unidimensional. Quando personagens são apresentados como puramente maus, as ações tomadas por protagonistas contra eles exigem menos questionamento moral por parte do público.
A genialidade da escrita, neste contexto, reside em Kishimoto não querer facilitar a aceitação de Itachi. Pelo contrário, a intenção parece ter sido justamente criar um personagem que divide opiniões. A capacidade de parte do público sentir repulsa por suas ações, enquanto outra parcela o idolatra por seu sacrifício, é o reflexo direto de uma escrita que se recusou a entregar respostas prontas.
A complexidade ética em torno de Itachi Uchiha reside, portanto, na forma como sua tragédia foi contada. Não foi um processo de anulação de sua humanidade ou da das vítimas para tornar sua escolha mais palatável ou mais abominável. Foi uma pintura de tons profundos, onde as sombras e a luz coexistem, garantindo seu lugar como um dos personagens mais discutidos e analisados do gênero Shonen.