A complexidade da antipatia: Por que alguns leitores resistem em odiar griffith, o antagonista de berserk
Uma análise sobre a dificuldade de condenar Griffith em Berserk, explorando a compreensão de suas motivações sombrias, mas não justificáveis.
A figura de Griffith, um dos mais proeminentes e controversos antagonistas da história do mangá Berserk, evoca reações viscerais na comunidade de fãs. No entanto, uma parcela específica de leitores expressa uma complexidade emocional incomum diante do personagem; a incapacidade de manter um ódio puro e absoluto por ele, mesmo reconhecendo a gravidade de seus atos.
Este fenômeno de recepção reside na distinção sutil que a narrativa permite fazer entre a compreensão de uma motivação e a justificação de uma atrocidade. Para muitos, o ponto central para sustentar a aversão a um vilão reside primariamente na qualidade da sua construção, ou seja, se o personagem possui uma escrita sólida e coesa ao longo da obra. No caso de Griffith, essa solidez é inegável.
A lógica por trás do desejo inabalável
A construção de Griffith em Berserk é metódica e profunda. Sua ambição transcendental, que o levou a forjar a Banda do Falcão e a sacrificar tudo em busca de seu sonho, dialoga com arquétipos clássicos de anti-heróis shonen elevados a um patamar trágico. É possível traçar a linha de raciocínio perversa que culmina no Sacrifício da Eclipse, compreendendo o ímpeto desesperado de um homem que se via definhando e disposto a pagar qualquer preço para recuperar o que perdeu.
Essa capacidade de traçar a linha do desenvolvimento narrativo, mesmo quando ela conduz a momentos de extrema revolta para o leitor, impede que a emoção se reduza a uma mera condenação superficial. O engano na escrita de personagens, muitas vezes associado a decisões arbitrárias ou motivações fracas, não é o fator aqui. Pelo contrário, a intenção e o caminho de Griffith são claros, o que aciona um mecanismo de análise mais frio no espectador.
Entre a raiva e a admiração pela escrita
É comum que leitores sintam a fúria necessária diante de suas ações mais abjetas, especialmente aquelas dirigidas a seus antigos companheiros. Contudo, esse sentimento de raiva coexiste com o respeito pela engenhosidade da trama que sustenta sua trajetória. A maestria com que o autor, Kentaro Miura, moldou um indivíduo tão carismático e, ao mesmo tempo, tão destrutivo, força uma admiração técnica que mitiga o ódio visceral.
Em essência, a dificuldade em odiar Griffith plenamente espelha a complexidade moral inerente ao universo de Berserk, um mundo onde sacrifícios extremos são moeda corrente e onde a ambição desmedida é frequentemente confundida com heroísmo. Entender o caminho percorrido pelo personagem, sem endossar o resultado final, é um exercício analítico que define parte da experiência de consumir essa obra-prima do mangá.