A dicotomia da redenção em berserk: Por que griffith enfrenta um julgamento mais severo que outros personagens?

Análise explora a inconsistência percebida na aceitação de desenvolvimentos de personagens em Berserk, focando na exclusão de Griffith do perdão.

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Analista de Mangá Shounen

18/01/2026 às 15:10

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O universo de Berserk, criado por Kentaro Miura, é notoriamente complexo em seu tratamento de moralidade, oferecendo poucas resoluções fáceis para os atos cometidos por seus personagens. Uma linha de análise sugere uma aparente inconsistência na forma como a narrativa e sua audiência lidam com o conceito de redenção, especialmente em contraste com o destino de Griffith.

O cerne da questão reside na dificuldade que muitos fãs encontram em aceitar qualquer forma de redenção para Griffith, o antagonista central, enquanto outros personagens que cometeram atos questionáveis parecem ter caminhos mais abertos ao desenvolvimento positivo ou ao perdão comunitário.

Diferentes pesos para atos terríveis

A polarização sobre o protagonista caído é frequentemente justificada pelo impacto direto e pessoal que seus atos tiveram sobre figuras centrais queridas pelo público, notavelmente o sacrifício da Banda do Falcão e o horror imposto a Casca. Contudo, essa justificativa parece oscilar quando comparada a outros arcos de personagem.

Um exemplo citado nesta análise comparativa é o desenvolvimento de Farnese. A personagem, em fases anteriores, demonstrou tendências sádicas, envolvendo-se em prazer derivado do sofrimento alheio, utilizando sua posição de poder para satisfazer impulsos obscuros durante a Inquisição. Apesar disso, seu caminho subsequente de arrependimento e evolução - um desenvolvimento substancial - é amplamente aceito e celebrado como prova de mudança.

O questionamento surge: se o desenvolvimento e a redenção são possíveis para quem cometeu atrocidades baseadas em sadismo pessoal (como Farnese), por que um caminho semelhante é rigidamente negado a Griffith?

O peso das vítimas não centrais

Outro ponto levantado na discussão é o tratamento dado a figuras como Daiba. Os experimentos conduzidos sob suas ordens envolveram o sacrifício e a violação de mulheres grávidas, resultando no nascimento de entidades demoníacas que devoravam suas próprias mães. Esses atos demonstram uma escala de crueldade institucional e desumanização que rivaliza com muitos dos feitos de Griffith.

A diferença na recepção parece se resumir a quem sofreu o dano primário. Quando os protagonistas estabelecidos são os alvos diretos da traição e violação, a barreira para o perdão se torna intransponível. A percepção é que o sofrimento de personagens coadjuvantes ou vítimas indiretas, por mais gráficas que sejam as suas histórias, é medicado com mais facilidade pela narrativa.

Argumentos que tentam isolar a ofensa de Griffith como sendo estritamente “pessoal” não parecem ser suficientes para justificar a regra dupla aplicada à possibilidade de redenção na obra. A questão final que permeia a obra de Miura é se o universo de Berserk permite uma redenção universal após o Eclipse, ou se certas ações transcendem qualquer possibilidade de reparação moral, independentemente do arco de evolução dos indivíduos envolvidos. A complexidade ética da sobrevivência neste mundo sombrio garante que essa tensão sobre o julgamento dos personagens permaneça um tópico central na análise da saga.

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Analista de Mangá Shounen

Especializado em análise aprofundada de mangás de ação e batalhas (shounen), com foco em narrativas complexas, desenvolvimento de enredo e teorias de fãs. Experiência em desconstrução de arcos narrativos e especulações baseadas em detalhes canônicos.