O dilema do perdão e a aceitação de casca na jornada de guts em berserk
A complexa relação entre Guts e Casca, marcada pelo trauma do Arco da Convicção, reacende o debate sobre redenção e sacrifício no mangá.
A trajetória emocional de Guts em Berserk, a obra-prima de Kentaro Miura, sempre esteve intrinsecamente ligada à sua relação com Casca. Um dos pontos mais sensíveis e debatidos entre os leitores diz respeito à possibilidade real de redenção e aceitação por parte de Casca, especialmente após os eventos traumáticos ocorridos durante o Arco da Convicção, onde Guts sofreu uma regressão total de controle.
O cerne da questão reside na natureza do ato cometido por Guts em seu estado de possessão demoníaca. Para a personagem Casca, que luta para recuperar suas memórias e sanidade, a dificuldade em perdoar um ato de violência sexual perpetrado por alguém que ela respeitava e por quem nutria sentimentos complexos é um obstáculo monumental. A narrativa explora o quão profundo deve ser o processo de cicatrização para que o vínculo emocional entre os dois personagens possa ser reconstruído sobre bases saudáveis, e não apenas sobre a necessidade mútua de sobrevivência.
A escolha impossível: Guts versus Moonlight Boy
Além da questão do perdão, a dinâmica futura entre os protagonistas força uma análise sobre qual é a prioridade máxima para Casca uma vez que sua consciência retorne plenamente. Uma das reflexões mais angustiantes propostas é: se confrontada com uma escolha drástica, Casca optaria pela vida de Guts ou pela proteção de Moonlight Boy?
Moonlight Boy, que se revela uma manifestação ligada ao sacrifício de Guts e à sua conexão com Griffith/Femto, representa a esperança de paz e o futuro, ainda que incerto. Por outro lado, Guts é o companheiro de longa data, o elo com o passado doloroso, mas também o pilar de sua luta pela sobrevivência no presente. A perspectiva de que, em um cenário extremo, Casca pudesse priorizar a segurança do menino em detrimento da vida de Guts sublinha o peso da sua recente maternidade e a urgência de afastar-se de toda a maldição que cerca o Espadachim Negro.
Contudo, há quem argumente que a absoluta dedicação de Guts a ela, mesmo sob o fardo da Espada Matadora de Dragões, deve pesar na decisão final. A jornada de Guts tem sido uma busca incessante por um futuro onde ele possa, finalmente, ser visto e aceito por Casca, com todas as suas cicatrizes físicas e emocionais. A aceitação, neste contexto, não envolve apenas esquecer a dor, mas sim acolher a pessoa complexa e quebrada que Guts se tornou em função de protegê-la da escuridão.
A forma como Miura estruturou a narrativa sugere que o verdadeiro teste não é se Casca consegue se lembrar, mas se ela pode escolher conviver com Guts no estado presente, reconhecendo que a linha entre a vítima e o protetor se tornou tênue e tragicamante interligada. A superação desse trauma coletivo é o que definirá o destino final dos personagens perante as forças demoníacas que os caçam, como bem explorado nos capítulos mais recentes da mangá, que continuam a aprofundar temas de sacrifício e amor incondicional. O entendimento de Casca sobre o sacrifício de Guts para proteger a todos, inclusive ela mesma, é crucial para o desenlace da saga.