A dualidade de farnese na saga berserk: Entre a fé fervorosa e a obsessão destrutiva

A personagem Farnese de Berserk levanta complexas questões sobre fanatismo e o impulso destrutivo sob o manto da devoção religiosa.

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Analista de Mangá Shounen

27/01/2026 às 09:26

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A figura de Farnese, um dos personagens mais complexos na aclamada série de mangá Berserk, criada por Kentaro Miura, frequentemente inspira análises profundas sobre sua psique e trajetória. Sua jornada é marcada por uma transição dramática de uma cruzada de fervor religioso para um papel de apoio essencial ao grupo de Guts.

Um dos aspectos mais enigmáticos e debatidos de sua caracterização reside na interpretação de seu comportamento inicial. Inicialmente, Farnese é apresentada como líder da Santa Cadeia, um grupo de inquisidores dedicado a erradicar o mal. No entanto, suas ações e reações demonstram uma intensidade que transcende a simples obediência à doutrina da Igreja Sagrada de Midland.

A faceta da piromania e o fogo purificador

Observadores da obra frequentemente questionam a natureza de seu zelo, comparando-o a um impulso quase incontrolável de purificação através do fogo. Em muitos contextos culturais, especialmente na Grécia Antiga, o termo 'pyromaniac', ou em grego 'pyromanis', descreve a obsessão pela destruição causada por incêndios. A semelhança com o comportamento inicial de Farnese é notável; sua rigidez e a presteza com que invocava a pena capital e o fogo contra aqueles considerados hereges ou possuídos sugerem um desequilíbrio profundo, uma necessidade latente de consumir e purificar o mundo ao seu redor.

Essa compulsão parece alimentar-se não apenas do dogma religioso, mas também de uma repressão pessoal complexa, exacerbada por seu trauma de infância envolvendo seu irmão, Adolf. Sua dedicação inicial à Igreja, comandada pelo Padre Mozgus, era uma manifestação extrema de sua tentativa de se controlar e impor ordem externa sobre seu caos interno.

A transformação através da jornada

O arco de Farnese é definido justamente pelo rompimento com essa identidade destrutiva. A exposição ao mundo real, fora das muralhas da Igreja, e sua subsequente ligação com Guts e Schierke forçam-na a confrontar a futilidade de sua violência anterior. Ela descobre que a verdadeira força não reside no poder de condenar, mas na capacidade de proteger e curar.

A substituição da espada e do fogo pela magia elemental, sob a tutela de Schierke, simboliza essa cura psicológica. Ao invés de ser a catalisadora da destruição, ela evolui para uma defensora habilidosa, utilizando seu conhecimento tático e recém-adquirido poder mágico para auxiliar Guts em batalhas cruciais contra as forças do Eclipse. A análise de sua personagem revela uma exploração magistral da neurose e da redenção, temas centrais nas narrativas mais ricas do gênero de fantasia sombria.

An

Analista de Mangá Shounen

Especializado em análise aprofundada de mangás de ação e batalhas (shounen), com foco em narrativas complexas, desenvolvimento de enredo e teorias de fãs. Experiência em desconstrução de arcos narrativos e especulações baseadas em detalhes canônicos.