A fadiga do poder estagnado: Por que roteiristas limitam o treinamento de personagens fora da tela

A estagnação de personagens poderosos durante longos períodos sem a devida evolução levanta questionamentos sobre a lógica narrativa e o desenvolvimento de enredos de suspense.

An
Analista de Mangá Shounen

03/02/2026 às 07:56

6 visualizações 5 min de leitura
Compartilhar:

Um ponto de fricção recorrente em narrativas longas, especialmente no universo mangá e anime, reside na aparente inércia de personagens altamente capacitados que, apesar de motivações claras para evoluir, não demonstram progresso significativo durante os intervalos de tempo fora da narrativa central. Essa tendência, muitas vezes percebida pelo público como um recurso preguiçoso, mina o impacto de preparações extensas para conflitos iminentes.

O cerne da insatisfação gira em torno de como períodos extensos de ausência do foco narrativo são preenchidos com o limbo do desenvolvimento. Exemplos notáveis surgem em sagas como Bleach, onde figuras centrais, após sofrerem derrotas humilhantes, parecem não capitalizar o tempo disponível para aprimoramento. O caso dos Vaizards, por exemplo, é citado como um sintoma: apesar da derrota infligida por Tosen e a necessidade clara de superar Aizen, seus aprimoramentos parecem mínimos ou inexistentes, com a exceção de alguns tenentes que sequer alcançam o Bankai após um século de espera.

A regressão de lendas

A situação se agrava quando personagens estrategicamente importantes, como Urahara e Yoruichi, demonstram não apenas estagnação, mas uma possível regressão em suas habilidades Shinigami durante o século em que estiveram foragidos, preparando-se para o confronto contra Aizen. Esperava-se que um período tão longo, dedicado à preparação para guerra, resultasse em melhorias substanciais, armamentos mais poderosos ou domínio de técnicas avançadas. Analogamente, esperar que um comandante militar se desarme para um conflito futuro soa ilógico dentro da própria verossimilhança da história.

Essa estagnação contrasta drasticamente com o desenvolvimento meteórico de protagonistas. Enquanto Ichigo Kurosaki pode saltar de um nível baixo para um patamar transcendente em meros seis meses, colegas e mentores aparentemente estagnam, falhando em consolidar o poder que já possuíam antes de serem afastados da linha principal.

O custo do hype não entregue

Quando roteiristas investem pesadamente no hype de um personagem, estabelecendo sua reputação como um bastião de força e habilidade, a subsequente performance em batalha que falha em justificar essa reputação torna-se um tropeço narrativo. É comparável a esperar que um personagem de alto escalão necessite ser salvo por novatos nos primeiros confrontos contra um antagonista de poder duvidoso.

Momentos específicos, como a luta de Urahara e Yoruichi contra uma versão enfraquecida de Yammy Llargo, onde ambos parecem incapazes de finalizar o adversário sem recorrer a formas extremas de poder, apenas solidificam a percepção de que esses personagens foram intencionalmente limitados para servir como degraus ou para inflar a importância da ameaça principal. O fato de Ulquiorra desconsiderar a energia liberada pelo Shikai de Urahara reforça este desequilíbrio.

A narrativa de poder eficiente deveria mostrar que o tempo de preparação se traduz em força bruta e conhecimento tático. Seja no desenvolvimento de manipulação elemental e energia natural ausente em personagens de Naruto, ou na ausência de maestria em Bankai em Bleach, a falta de evolução tangível sugere que as motivações criativas para o enredo prevaleceu sobre a consistência interna dos personagens, resultando em decepções para quem acompanha o arco de desenvolvimento dessas figuras.

An

Analista de Mangá Shounen

Especializado em análise aprofundada de mangás de ação e batalhas (shounen), com foco em narrativas complexas, desenvolvimento de enredo e teorias de fãs. Experiência em desconstrução de arcos narrativos e especulações baseadas em detalhes canônicos.