Hideaki anno, diretor de evangelion, defende que o público deve se adaptar à cultura japonesa, e não o contrário
O criador de Neon Genesis Evangelion afirma que não mira o mercado internacional e que seu foco é a obra nacional.
04/01/2026 às 04:05
Em um momento em que a indústria de conteúdo japonesa ambiciona uma expansão global cada vez maior, impulsionada inclusive por políticas governamentais de apoio, o visionário diretor Hideaki Anno, conhecido mundialmente por criar Neon Genesis Evangelion, apresentou uma visão contraponto a essa tendência.
Em entrevista recente à Forbes Japan, Anno, que recentemente finalizou a tetralogia cinematográfica Rebuild of Evangelion com Evangelion: 3.0+1.0 Thrice Upon a Time, deixou claro seu foco criativo primário: o mercado doméstico japonês.
Prioridade Nacional e Distanciamento do Mercado Externo
Anno afirmou que, pessoalmente, nunca produziu suas obras pensando no público estrangeiro. Embora reconheça que produtoras frequentemente aconselham considerar o mercado internacional, seu objetivo central permanece fixo no Japão. "Minha postura é simples: primeiro precisa ser um trabalho que será bem recebido e considerado interessante no Japão, mas se por acaso as pessoas no exterior também o acharem interessante, ficarei grato por isso", explicou o diretor.
Ele citou a produção de Thrice Upon a Time como um exemplo claro, onde o planejamento para o público internacional esteve completamente ausente. Anno optou por produzir o filme de forma independente justamente para garantir que não houvesse interferência externa, assumindo total responsabilidade pelo resultado financeiro da obra.
A Barreira da Linguagem e da Intenção Criativa
O diretor detalhou as dificuldades inerentes à criação para um público não japonês, destacando a barreira linguística. Enquanto o cinema combina elementos visuais e sonoros, o que diminui o obstáculo em comparação com outras mídias narrativas, o cerne do drama reside nos diálogos e nas nuances do pensamento dos personagens, todos expressos em japonês.
Para Anno, obras baseadas em processos de pensamento japoneses só podem ser plenamente compreendidas se o público estrangeiro acessar as intenções e as complexidades expressas no idioma original. A partir dessa premissa, ele estabeleceu uma posição firme e um tanto provocativa sobre a responsabilidade pela compreensão.
Certa de sua filosofia, Anno declarou: "Sinto muito, mas o público terá que ser aquele que se adapta". Ele argumenta que, diferentemente de mídias interativas como videogames, o cinema é uma "estrada de mão única". Reclamações do público podem não chegar de fato aos criadores, e o meio cinematográfico não se molda prontamente ao espectador.
Confiança no Criador e o Papel do Negócio
A confiança na visão do criador é, portanto, um ponto crucial na visão de Anno. Ele acredita que é perfeitamente aceitável manter a produção focada internamente, citando inclusive o estúdio Studio Ghibli e seu cofundador, Hayao Miyazaki, como exemplos de nomes que priorizam o doméstico sem se preocupar com o mercado global em fase de criação.
Na ótica do diretor de Evangelion, a promoção internacional e a distribuição para mercados externos devem ser responsabilidade de terceiros. "Devemos deixar que as pessoas do ramo transformem nosso trabalho em produtos e os vendam, esse é o melhor caminho a seguir", pontuou. Ele reconheceu, contudo, que parte da dificuldade histórica da penetração de obras japonesas no Ocidente reside na "falta de habilidade em vendê-las" por parte da indústria local.
Analista de Webtoons e Direitos Autorais
Especialista em análise de propriedade intelectual (IP) de webtoons coreanos, com foco em verificação de autenticidade de criadores e plataformas digitais como KakaoPage. Foca em relatar discrepâncias e desinformação com base em evidências legais ...