Idades dos personagens de kimetsu no yaiba geram debate sobre representação e contexto narrativo
A discrepância de idade entre Nezuko Kamado e outros personagens, como Zenitsu Agatsuma, levanta discussões sensíveis sobre a sexualização no anime.
A franquia Kimetsu no Yaiba, mundialmente reconhecida pelo seu sucesso estrondoso em mangá e animação, frequentemente atrai olhares para além de suas intensas batalhas contra onis. Recentemente, a análise detalhada das fichas biográficas dos personagens trouxe à tona uma questão delicada que toca em pontos sensíveis da representação de jovens na mídia japonesa: as idades de alguns protagonistas.
O foco recai sobre a diferença etária entre Nezuko Kamado e Zenitsu Agatsuma. Enquanto Zenitsu, um dos principais caçadores ao lado de Tanjiro Kamado, possui dezesseis anos em grande parte da narrativa, Nezuko, que passou pela transformação em demônio, é retratada com apenas doze anos de idade. Esta disparidade, embora frequentemente relegada a anotações de rodapé em discussões mais amplas sobre a obra, ressurge como um ponto de incômodo para observadores mais atentos.
A linha tênue entre o alívio cômico e a preocupação
No universo de Demon Slayer, o personagem Zenitsu é construído com base em traços exagerados de covardia e humor, culminando em uma afeição persistente e obsessiva por Nezuko. Essa dinâmica, que muitas vezes serve como fonte de alívio cômico entre os momentos de extremo perigo, adquire um tom diferente quando se considera o contexto etário.
Muitos espectadores e analistas expressam uma sensação de desconforto diante de representações onde a atração ou o interesse romântico é direcionado a uma personagem que ainda se encontra na pré-adolescência, especialmente em um contexto narrativo que envolve temas maduros como morte e violência extrema. A arte do anime, em geral, é alvo de escrutínio sobre como equilibra o apelo visual com a maturidade dos temas abordados.
A preocupação se estende à indústria de anime como um todo. Observa-se uma tendência histórica de explorar a imagem de personagens jovens em posições narrativas que desafiam a sensibilidade contemporânea. Para muitos, a simples existência de grandes lacunas de idade entre personagens que compartilham relações centrais na trama, mesmo que a personagem mais jovem permaneça imutável devido à sua condição de demônio, exige uma reavaliação dos limites aceitáveis no fan service e na construção de relações.
Contextualização no Japão Meiji e o olhar moderno
É crucial contextualizar que a história de Kimetsu no Yaiba se passa durante o período Taishō (1912-1926) no Japão, um momento histórico com normas sociais e expectativas de maturidade diferentes das atuais. Contudo, a obra é consumida globalmente por audiências com valores éticos e morais padronizados pelo século XXI. Este choque cultural e temporal força uma análise crítica sobre o que é aceitável em termos de representação de protagonistas juvenis no entretenimento popular.
A discussão não visa desmerecer a qualidade técnica ou o impacto cultural da obra de Koyoharu Gotouge, mas sim destacar como certas escolhas de caracterização, quando examinadas sob uma ótica atenta à faixa etária dos personagens, podem gerar um sentimento de estranhamento ou apreensão em uma parcela significativa do público que busca narrativas mais responsáveis com a imagem de seus jovens heróis e heroínas.
Analista de Mangá Shounen
Especializado em análise aprofundada de mangás de ação e batalhas (shounen), com foco em narrativas complexas, desenvolvimento de enredo e teorias de fãs. Experiência em desconstrução de arcos narrativos e especulações baseadas em detalhes canônicos.