A negação inerente: A dificuldade de aceitar o poder absoluto no universo de one-punch man
A análise explora a persistente negação dos personagens de One-Punch Man sobre a força de Saitama e a mística em torno de King.
Um aspecto intrigante da narrativa de One-Punch Man reside na reação cética e até mesmo ilógica de muitos de seus personagens diante de evidências irrefutáveis de poder descomunal. A dificuldade em assimilar a força avassaladora de Saitama, o protagonista, e a superestimação contínua do herói King, levanta questões sobre os mecanismos psicológicos de negação e autossabotagem, mesmo entre os indivíduos que deveriam ser mais racionais, como os heróis de Classe S.
O cerne da questão não parece ser a falta de provas, mas sim uma barreira cognitiva para aceitar a anomalia que Saitama representa. Enquanto Saitama anseia por um bom desafio, os heróis ao seu redor gastam energia mental significativa tentando racionalizar ou desqualificar suas conquistas. Trata-se de uma recusa em aceitar um novo paradigma de poder onde a lógica hierárquica estabelecida pode ser instantaneamente quebrada por um único indivíduo.
A ilusão de King e a cegueira estratégica
A situação é particularmente evidente no tratamento dado ao herói King. Alguns personagens, como o mestre Bang (Silver Fang), demonstram hesitação ou evitações táticas que beiram a ingenuidade em relação ao status real de King. Em momentos cruciais, onde o teste de poder seria a ação mais sensata, investem em desvios ou aceitam explicações convenientes. Personagens como Genos e, surpreendentemente, o próprio Saitama, parecem ser refúgio da normalidade, aceitando os fatos como são.
Existe um ceticismo profundo que leva alguns profissionais a ignorarem o óbvio. O herói Flashy Flash é citado como um exemplo notável dessa mentalidade. Após um encontro onde sua derrota é iminente ou consumada contra Saitama, a resposta imediata é a projeção de superioridade, como se seu corpo e mente se recusassem a processar a verdade do confronto. Este comportamento sugere que a autopercepção e a reputação profissional são mais difíceis de abandonar do que aceitar a superioridade alheia.
Negação sensorial e o fator humano
A análise se aprofunda na capacidade humana de negar aquilo que os próprios sentidos testemunharam. Quando um indivíduo, comprovadamente mais fraco após um combate direto, insiste fanaticamente em sua primazia, questiona-se: até que ponto a mente humana pode construir refúgios de autoengano para proteger o ego? Mesmo cientistas, como o criador de Zombieman, demonstram uma predisposição a buscar explicações complexas - como loucura súbita ou falhas de programação - antes de aceitar uma verdade simples e perturbadora vinda de uma fonte direta.
Fora do círculo dos heróis de elite, a sociedade em geral opera sob o peso da mentalidade de rebanho. O comportamento das massas civis em relação ao status de Saitama é retratado como uma reação em cadeia, onde a opinião majoritária anula qualquer análise individual de fatos observados. Essa dinâmica social amplifica a dificuldade de aceitação, transformando a verdade sobre o herói mais forte em uma questão de conformidade cultural, e não de observação objetiva.