A natureza do ódio a griffith: O impacto do eclipse na percepção de um vilão complexo

A agressão sexual contra Casca durante o Eclipse define a vilania de Griffith para muitos fãs de Berserk, mas questiona-se o limite da sua rejeição sem este ato.

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Analista de Mangá Shounen

07/02/2026 às 03:52

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A natureza do ódio a griffith: O impacto do eclipse na percepção de um vilão complexo

O personagem Griffith, figura central na narrativa épica de Berserk, de Kentaro Miura, é um dos antagonistas mais estudados e polarizadores da cultura pop. Sua ambição desmedida e o sacrifício da Banda do Falcão para alcançar seu sonho são, por si só, atos de profunda traição e egoísmo moral. Contudo, o ponto de inflexão que cimenta a repulsa quase universal em relação à sua figura reside no evento conhecido como o Eclipse.

A linha divisória moral da narrativa

O Eclipse não foi apenas uma traição política ou militar; foi um ato de violência sexual explícita contra Casca, um dos membros mais leais e vulneráveis da tropa. Este ato é frequentemente citado como o catalisador definitivo para a transformação de Griffith em Femto, solidificando sua imagem não apenas como um tirano, mas como um perpetrador de um trauma insuperável, especialmente para Guts.

A questão que surge ao analisar a recepção do personagem é: até que ponto a intensidade do ódio direcionado a Griffith está intrinsecamente ligada a este ato específico de violência contra Casca? Se observarmos os atos anteriores de Griffith, notamos que ele frequentemente manipulava aqueles ao seu redor, usando pessoas como peças descartáveis para seu avanço. Ele buscou o poder absoluto, colocando seu desejo acima de qualquer laço humano, o que já o tornava um vilão trágico e ambicioso, admirado por seu carisma e visão.

Estratégia versus Atrocidade

Analisando a trajetória, percebe-se uma clara escalada na degradação moral. O ato de se entregar aos Apóstolos, embora altruísta do ponto de vista da sua ascensão, já implicava a condenação de todos os seus companheiros. Esta escolha mostra uma mentalidade utilitarista levada ao extremo, onde a vida dos outros vale zero em comparação com seu sonho.

No entanto, o horror do Eclipse transcende a frieza estratégica. A brutalidade contra Casca introduz uma dimensão de depravação pessoal que choca e ultrapassa o mero desejo de poder. É um ataque que visa destruir não apenas a lealdade, mas a própria identidade da vítima e de seu protetor, Guts. Muitos argumentam que remover este elemento resultaria em uma figura que ainda seria desprezível, mas talvez mais facilmente passível de análise acadêmica ou até de uma certa nostalgia pelos seus dias de glória passada, como um mero déspota heroico fracassado.

A comunidade de leitores e espectadores de Berserk frequentemente pondera sobre o peso simbólico desse momento. Sem ele, Griffith seria apenas o tirano que sacrificou seus amigos; com ele, ele se torna o arquétipo da maldade absoluta na série, onde o sonho não pode ser alcançado sem a destruição completa da humanidade e da decência. Essa distinção influencia profundamente como os leitores processam sua presença contínua no mundo da história.

A complexidade de Griffith reside justamente na dicotomia entre o ídolo carismático que inspirou Guts e a entidade fria que cometeu atos inomináveis. A violência explícita serviu para selar seu destino narrativo como irredimível e para forçar Guts a uma jornada de vingança sem retorno. Não é apenas um detalhe, mas o cerne da sua antagonização definitiva no universo criado por Miura.

An

Analista de Mangá Shounen

Especializado em análise aprofundada de mangás de ação e batalhas (shounen), com foco em narrativas complexas, desenvolvimento de enredo e teorias de fãs. Experiência em desconstrução de arcos narrativos e especulações baseadas em detalhes canônicos.