A percepção seletiva e o efeito prático de ser ignorado nas histórias de fantasia complexas
Análise de um conceito narrativo explorado na obra <em>Berserk</em>: como a falta de atenção pode tornar seres mágicos invisíveis.
Um detalhe recorrente nas narrativas de fantasia épica, especialmente aquelas com alta complexidade sobrenatural, reside na forma como os personagens reagem a elementos que desafiam sua compreensão de realidade. No universo de Berserk, criado pelo falecido Kentaro Miura, esta sutileza ganha destaque em um ponto crucial da trama explorado no volume 17, capítulo 123, intitulado Night of Miracles.
A passagem em questão toca em um ponto fascinante sobre a natureza dos seres feéricos e sua interação com o mundo humano. É apresentada a ideia de que, muitas vezes, a não percepção de um ser como Puck, o elfo, não é resultado de um feitiço de ocultação ativo, mas sim de uma falha inerente à atenção humana. A citação sugere que criaturas etéreas como os elfos podem simplesmente não capturar o foco de uma pessoa, fazendo com que existam literalmente ali, mas sejam ignorados.
A invisibilidade pela indiferença
Este conceito se afasta da invisibilidade clássica baseada em mágica de ilusão, aproximando-se mais de um fenômeno psicológico ou sociológico aplicado ao fantástico. Se uma pessoa não *espera* ver um elfo, o cérebro pode processar sua presença como ruído de fundo ou simplesmente excluí-la da consciência, mesmo que visualmente ele esteja a poucos centímetros de distância. Este mecanismo explica, em parte, como Puck e outros seres mágicos conseguem navegar em ambientes repletos de pessoas comuns sem causar um alvoroço constante.
A implicação disso para a narrativa é significativa. Enquanto Guts, o protagonista, possui uma conexão única, muitas vezes forçada pela dor e pelo misticismo ao seu redor, a maioria das pessoas funciona com um filtro de realidade bastante rígido. Isso reforça a dualidade do mundo retratado em Berserk: um mundo onde o brutalmente real coexiste com o puramente mágico, e o acesso a este último depende de uma predisposição mental específica.
O papel de Puck na narrativa
Puck, apesar de ser um personagem essencial para equilibrar o tom sombrio da série, representa o elemento que a maioria da população simplesmente não está apta a registrar. Este detalhe, embora breve, adiciona uma camada de profundidade à construção de mundo da obra. Ele sugere que a magia existe em um espectro de detectabilidade, onde o observador é tão crucial quanto o observado. A ausência de percepção pode ser a defesa mais eficaz contra aqueles que não têm a sensibilidade ou a necessidade de reconhecer o extraordinário.
Essa observação sobre a percepção seletiva, resgatada das páginas da saga, oferece um prisma interessante para analisar como narrativas de fantasia abordam a integração do sobrenatural com o cotidiano, utilizando a própria falibilidade humana como barreira, ao invés de depender unicamente de encantamentos complexos. A capacidade de ser ignorado, neste contexto, transforma-se em uma forma peculiar de sobrevivência no mundo de Berserk, moldando a trajetória de companheiros mágicos ao lado de seu portador amaldiçoado.