A evolução do trauma: Como a percepção do arco eclipse de berserk muda com o tempo

A passagem de uma década transforma a reação ao sacrifício de Griffith em Berserk, revelando um peso emocional distinto na fase adulta.

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Analista de Mangá Shounen

20/02/2026 às 09:04

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O arco Eclipse da obra Berserk, criada pelo lendário Kentaro Miura, é universalmente reconhecido como um dos momentos mais sombrios e impactantes de toda a mídia de fantasia. A profundidade do trauma infligido por Griffith, ao escolher seu caminho para o poder sacrificando a Tropa do Falcão, é tão intensa que muitos espectadores e leitores relatam uma dificuldade crescente em revisitar o conteúdo à medida que envelhecem.

Um relato pessoal recente ilustra essa mudança de perspectiva. Acompanhando a história de Guts e seus companheiros, nota-se que, ao se aproximar do fatídico capítulo que antecede o evento, a vontade de continuar a jornada desaparece. Para quem teve o primeiro contato com a história na adolescência, a experiência é muito diferente daquela vivida dez anos depois, já na vida adulta. Aos 15 anos, o choque é imediato; aos 25, o peso da tragédia se instala de forma mais visceral.

A inevitabilidade da desgraça

A reflexão central gira em torno da sensação de impotência diante do destino selado. Ao revisitar os eventos que culminam no sacrifício, surge a dúvida crucial: o que poderia ter sido feito para evitar a calamidade? Questionamentos sobre as escolhas de Guts, sobre um movimento mínimo de Griffith que poderia ter alterado o curso dos acontecimentos, revelam uma maturidade analítica que nem sempre está presente na primeira leitura.

Há quem especule sobre as intenções de Griffith antes mesmo da materialização de sua ambição. A proximidade que ele cultuava com Guts, e a forma como tudo pareceu se encaixar perfeitamente para que ele fosse o escolhido, levanta a hipótese de que, de alguma maneira sutil, o líder desejava que Guts testemunhasse o ápice de seu projeto, por mais destrutivo que fosse.

O momento da seleção, quando a escolha de sacrificar aqueles que amava se impõe, carrega um fardo emocional devastador. Para o leitor mais velho, a compreensão das implicações sociais e emocionais da traição se aprofunda, transformando a dor em luto prolongado. Isso leva muitos a optarem por pular o conteúdo traumático, buscando o recomeço de Guts após o Eclipse, quando ele já está fora daquela dimensão de horror.

A saudade dos camaradas perdidos

A dor da perda é acentuada pela lembrança daqueles que não sobreviveram. Em especial, a figura de Judeau é citada como uma ausência sentida no futuro da narrativa. A imaginação se volta para o papel que ele poderia ter desempenhado ao lado de Guts na sua jornada cotidiana após a tragédia, embora se reconheça a natureza imutável do que aconteceu.

A arte de Berserk, especialmente contida no mangá escrito por Miura, possui a rara capacidade de ressoar de maneira diferente em cada fase da vida de seu consumidor. O horror do Eclipse não se dilui com o tempo; ele apenas ganha novas camadas de significado, provando a força duradoura da narrativa em explorar os limites da esperança e da depravação humana, temas centrais na obra de fantasia sombria.

An

Analista de Mangá Shounen

Especializado em análise aprofundada de mangás de ação e batalhas (shounen), com foco em narrativas complexas, desenvolvimento de enredo e teorias de fãs. Experiência em desconstrução de arcos narrativos e especulações baseadas em detalhes canônicos.